Parecer de Machado de Assis: Clermont ou A Mulher do Artista

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Este documento histórico apresenta um Machado de Assis em pleno exercício de sua agudeza crítica, atuando como avaliador de obras teatrais no século XIX. O texto em questão é um parecer datado de 16 de março de 1862, onde o Bruxo do Cosme Velho analisa o drama em três atos intitulado Clermont ou A Mulher do Artista. Trata-se de uma peça fundamental para pesquisadores da literatura e da história do teatro brasileiro, revelando os critérios estéticos e éticos de um dos maiores escritores da nossa língua.

Análise Crítica e Rigor Linguístico

No documento, Machado de Assis não poupa críticas à obra analisada, classificando-a como uma “banalidade literária” e uma “narração fria”. O autor demonstra uma preocupação profunda com a qualidade das adaptações que chegavam aos palcos brasileiros. Ele aponta erros crassos de tradução do francês para o português, como a confusão entre os termos demander (traduzido como pedir em vez de perguntar) e repétition (traduzido como repetição em vez de ensaio).

O Teatro como Força de Civilização

Um dos pontos mais fascinantes deste parecer é a visão de Machado sobre a função social da arte. Ele lamenta que os teatros da época se alimentassem de composições sem mérito, que, em sua visão, pervertiam o gosto público. Para o autor, o teatro deveria ser uma “força de civilização”. Ele chega a sugerir que o governo deveria intervir para iniciar uma reforma que devolvesse ao teatro o seu devido lugar de destaque cultural.

Contexto Histórico: O Segundo Reinado

Situado em 1862, o parecer reflete o ambiente cultural do Segundo Reinado no Rio de Janeiro. Naquela época, a influência francesa era predominante, e muitas obras eram traduzidas às pressas para suprir a demanda do público carioca. Machado de Assis cita críticos franceses como Ulbach e Montégut para embasar seu rigor, demonstrando que estava sintonizado com os debates intelectuais europeus da época.

Censura e Legalidade no Brasil Império

O documento também revela nuances interessantes sobre o sistema de aprovação de espetáculos. Embora Machado faça uma severa “condenação literária” à peça, ele ressalta que ela não fere os preceitos da lei vigente. Por isso, ele não embaraça a exibição cênica, separando o julgamento artístico do cumprimento legal. Este detalhe oferece uma visão valiosa sobre como funcionava a censura e a regulamentação cultural no Brasil oitocentista.

O arquivo completo com a transcrição e a imagem original deste parecer histórico está disponível para download no Acervo On-line, permitindo que estudiosos e entusiastas da obra de Machado de Assis explorem cada detalhe de seu pensamento crítico em seus anos de formação.

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