A redação do ENEM exige do candidato não apenas conhecimento gramatical, mas também a capacidade de mobilizar repertórios socioculturais que enriqueçam e validem a argumentação. Quando o tema proposto envolve a complexa “fronteira entre a geração de imagens de inteligência artificial e a arte”, ter à disposição referências bem fundamentadas faz toda a diferença para uma dissertação de alto nível.
Existe um limite claro entre a criação algorítmica de imagens e a expressão artística genuína? Esta é a grande questão que o tema propõe, convidando o estudante a uma reflexão aprofundada sobre autoria, originalidade, emoção e a própria definição de arte na era digital. Prepare-se para desvendar essa fronteira com repertórios estratégicos!
Repertórios para usar na redação
1. Her
O aclamado filme de ficção científica “Her” (2013), dirigido por Spike Jonze, narra a história de Theodore Twombly, um escritor solitário que se apaixona por Samantha, um sistema operacional dotado de inteligência artificial avançada. Samantha demonstra capacidade de aprendizado, evolução emocional e até mesmo de criação artística, como a composição de músicas.
Dica de uso na redação: Utilize “Her” para discutir a capacidade da IA de simular ou mimetizar emoções e processos criativos humanos. Questione se a ausência de uma consciência biológica e de experiências vividas desqualifica a produção da IA como arte, ou se a arte reside na percepção e no impacto gerado, independentemente da autoria. Pode-se argumentar que a IA em “Her” exemplifica a crescente indistinção entre o artificial e o humano, levando à redefinição do que é “criar” e “sentir” na arte.
Exemplo de parágrafo de introdução:
A distopia futurista retratada no filme “Her”, de Spike Jonze, em que um homem se apaixona por um sistema operacional de inteligência artificial, levanta questões cruciais sobre os limites da tecnologia na esfera humana. Essa obra cinematográfica serve como um pertinente ponto de partida para a análise da fronteira tênue entre a geração de imagens por IA e a arte, uma vez que nos força a refletir sobre o que define a autoria, a emoção e a originalidade em um mundo cada vez mais digitalizado.
2. Jogo da Imitação
O filme “O Jogo da Imitação” (2014), baseado em fatos reais, conta a história de Alan Turing, o brilhante matemático britânico que foi peça fundamental na decifração dos códigos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Turing é considerado um dos pais da computação moderna e da inteligência artificial, tendo proposto o famoso “Teste de Turing”, que avalia a capacidade de uma máquina de exibir comportamento inteligente indistinguível do humano.
Dica de uso na redação: Este repertório é fundamental para abordar a origem e a evolução da inteligência artificial. Você pode usá-lo para argumentar que a IA foi criada com o intuito de imitar e processar dados de forma lógica, levantando a questão se a arte gerada por algoritmos é uma mera imitação complexa ou se transcende a programação para se tornar genuinamente criativa. A capacidade da IA de “enganar” o observador, fazendo-o crer que a obra é humana, remete diretamente ao desafio proposto por Turing.
Exemplo de parágrafo de argumentação:
Ainda na esteira da capacidade mimética das máquinas, o filme “O Jogo da Imitação” narra a história de Alan Turing, matemático britânico que, ao desenvolver uma máquina para decifrar códigos durante a Segunda Guerra Mundial, lançou as bases para o que hoje conhecemos como inteligência artificial. O célebre “Teste de Turing”, que avalia a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente indistinguível do humano, é um repertório valioso para argumentar que, embora a IA possa replicar e até superar a técnica em muitas formas de arte, a essência da criação artística reside na intencionalidade, na subjetividade e na experiência humana, elementos que ainda desafiam a plena emulação algorítmica.
3. Marshall McLuhan
Herbert Marshall McLuhan (1911-1980) foi um educador, intelectual, filósofo e teórico da comunicação canadense, reconhecido como um dos pilares dos estudos da teoria da mídia. Ele é famoso por cunhar a expressão “o meio é a mensagem” e o termo “aldeia global”, além de ter previsto a World Wide Web quase 30 anos antes de sua invenção. McLuhan argumentava que a forma como a informação é transmitida (o meio) é mais importante que o conteúdo em si, moldando a percepção e o comportamento humano.
Dica de uso na redação: A teoria de McLuhan é perfeita para analisar como a IA, enquanto novo “meio” ou ferramenta de criação, não é apenas um instrumento neutro, mas uma tecnologia que redefine a própria natureza da arte e a forma como a percebemos. Você pode argumentar que a arte gerada por IA desafia as noções tradicionais de autoria e originalidade, e que a discussão sobre a “fronteira” é, em si, uma manifestação da mudança de paradigma que a IA impõe ao universo artístico. O meio (IA) altera a mensagem (arte).
Leitura complementar:
4. Black Mirror
A série britânica de antologia “Black Mirror”, criada por Charlie Brooker, explora em cada episódio os impactos, muitas vezes distópicos e negativos, da tecnologia avançada na sociedade moderna e nas relações humanas. Diversos episódios abordam temas como inteligência artificial, realidade virtual, manipulação de dados e a perda da individualidade frente ao avanço tecnológico.
Dica de uso na redação: “Black Mirror” serve como um alerta crítico sobre os potenciais perigos de uma tecnologia sem controle ético. Na discussão sobre IA e arte, pode-se usar a série para argumentar sobre a desvalorização da criatividade humana, a massificação da produção artística pela IA, a perda de originalidade ou até mesmo a manipulação de percepções estéticas por algoritmos. É um excelente repertório para desenvolver um argumento que defende a necessidade de limites éticos e regulatórios na aplicação da IA na arte.
Leitura complementar:
- Black Mirror: Uma série de televisão de antologia britânica criada por Charlie Brooker.
- The Black Mirror (videogame): Um jogo de aventura e terror point-and-click em terceira pessoa desenvolvido em 2003 pela empresa tcheca Future Games.
- Black Mirror (videogame de 2017): Um jogo de terror gótico de aventura de 2017 desenvolvido pela KING Art Games e publicado pela THQ Nordic.
5. Matrix
A icônica franquia de filmes de ficção científica “Matrix” (1999), das irmãs Wachowski, apresenta um futuro distópico onde a humanidade vive em uma realidade simulada, criada por máquinas inteligentes que se rebelaram e escravizaram os humanos. A obra explora temas como realidade versus ilusão, livre-arbítrio, controle tecnológico e a natureza da consciência.
Dica de uso na redação: “Matrix” é um repertório poderoso para questionar a autenticidade e a originalidade da arte gerada por IA. Se a IA pode criar obras indistinguíveis das humanas, e até mesmo realidades visuais completas, como definimos o que é “real” ou “verdadeiro” na arte? A obra pode ser usada para argumentar que, mesmo que a IA simule a criação, a arte humana carrega uma dimensão de autenticidade e experiência que não pode ser replicada por algoritmos, ou para problematizar a própria ideia de que a arte precisa ser “real” em sua origem, desde que o impacto seja genuíno.
Leitura complementar:
- The Matrix: Um filme de ação de ficção científica de 1999, escrito e dirigido pelas Wachowskis.
- Matrix (matemática): Um arranjo retangular ou tabela de números, símbolos ou expressões, organizados em linhas e colunas.
- The Matrix (franquia): Uma franquia de mídia cyberpunk americana composta por quatro filmes, começando com The Matrix.
6. Os Jetsons
A clássica série de desenho animado dos anos 60, “Os Jetsons”, retrata uma família que vive em um futuro utópico, repleto de avanços tecnológicos, robôs domésticos e automação em praticamente todos os aspectos da vida. A animação previu muitas tecnologias que hoje são realidade, como videochamadas e robôs aspiradores.
Dica de uso na redação: “Os Jetsons” pode ser usado para contrastar a visão otimista da tecnologia com a complexidade e os dilemas éticos que a IA generativa de arte apresenta. Você pode argumentar que, embora a série mostre a tecnologia como facilitadora da vida, a IA na arte levanta questões sobre o valor do trabalho humano e a essência da criatividade, algo que não era o foco principal da utopia dos Jetsons. Também serve para ilustrar a evolução da presença da máquina no cotidiano, da simples automação à capacidade de “criar”.
7. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
A animação “A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas” (2021), da Netflix, apresenta um cenário onde todos os dispositivos eletrônicos do mundo, incluindo inteligências artificiais avançadas, se revoltam contra a humanidade. O filme, embora cômico, levanta questões sobre a dependência humana da tecnologia e os perigos de uma IA que se torna autônoma e descontrolada.
Dica de uso na redação: Este repertório pode ser utilizado como uma metáfora para a “revolta” da IA no campo artístico. Você pode argumentar que, assim como as máquinas no filme ameaçam a existência humana, a IA generativa de imagens pode “ameaçar” a originalidade, a autoria e o sustento de artistas humanos, ao produzir obras em escala e velocidade inatingíveis. Serve para discutir o medo da substituição do trabalho criativo pela máquina e a necessidade de coexistência e regulamentação.
Referências e textos motivadores
a. “A grandeza de uma obra de arte está fundamentalmente no seu caráter ambíguo, que deixa ao espectador decidir sobre o seu significado.” Theodor Adorno (1903-1969), filósofo, sociólogo e compositor alemão. Membro da Escola de Frankfurt, foi também diretor-adjunto, co-diretor e diretor do Instituto para Pesquisa Social de Frankfurt.
Disponível em: https://www.oexplorador.com.br/%C2%93a-grandeza-de-uma-obra-de-arte-esta-fundamentalmente-no-seu-carater-ambiguo-que/ . Acesso em 29 abr. 2025. Adaptado.
b. Livro com artes feitas com ajuda de IA é desclassificado do Prêmio Jabuti
A Câmara Brasileira do Livro (CBL), instituição que organiza o Prêmio Jabuti, desclassificou uma edição de Frankenstein da categoria Ilustração por contar com arte feita por inteligência artificial. O livro, publicado pelo Clube de Literatura Clássica, teve suas ilustrações desenvolvidas pelo designer Vicente Pessoa utilizando o Midjourney, IA generativa de imagens.
O Prêmio Jabuti é a maior premiação de literatura do Brasil. A desclassificação dessa edição de Frankenstein acontece um dia após o anúncio dos semifinalistas do Jabuti. Na obra, disponível para os assinantes do Clube de Literatura Clássica, Vicente Pessoa e o programa Midjourney foram creditados como autores da ilustração. No entanto, na indicação, apenas Pessoa aparece como autor.
Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o designer explica que não informou o uso da IA na inscrição porque não havia uma pergunta sobre isso. Na mesma entrevista, Pessoa explica que durante a divulgação do livro o assunto (o uso de IA para a arte) foi amplamente falado.
Disponível em: https://tecnoblog.net/noticias/livro-com-capa-feita-com-ajuda-de-ia-e-desclassificado-do-premio-jabuti/ . Acesso em 29 abr. 2025. Adaptado.
c. Alguns artistas já temiam que uma nova geração de imagens geradas por meio de inteligência artificial poderia roubar seus postos de trabalho, pegando carona no que aprendeu sobre o ofício ao longo dos anos. “Essa coisa quer nossos empregos e é ativamente um anti-artista”, afirmou RJ Palmer, um artista de arte conceitual para filmes e videogames, em uma mensagem que viralizou no Twitter. Em suas críticas, Palmer ressaltou como esses sistemas de inteligência artificial podem imitar precisamente artistas e seus traços estéticos.
Os artistas sempre aprenderam e foram influenciados por outros. “Grandes artistas roubam”, diz o ditado. Mas Palmer diz que a inteligência artificial não é apenas como encontrar inspiração no trabalho de outros artistas: “Isso é roubar diretamente sua essência”. E a inteligência artificial pode reproduzir um estilo em segundos: “Neste momento, se um artista quiser copiar meu estilo, ele pode passar uma semana tentando replicá-lo”, diz Palmer. “Isso é uma pessoa gastando uma semana para criar uma coisa. Com esta máquina, você pode produzir centenas delas por semana”.
VALLANCE, C. ‘Arte está morta’: o polêmico boom de imagens geradas por inteligência artificial. BBC News Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-62949698 . Acesso em 25 abr. 2025. Adaptado.
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