A redação do ENEM exige do candidato não apenas conhecimento gramatical, mas também o uso de repertórios socioculturais que enriqueçam a argumentação e demonstrem sua capacidade de relacionar diferentes áreas do saber. Quando o tema é “Perspectivas acerca dos maus tratos em animais no Brasil”, ter um arsenal de bons repertórios faz toda a diferença para construir uma tese sólida e propostas de intervenção eficazes.
Repertórios Essenciais para sua Redação ENEM
1. O Clássico “101 Dálmatas” e a Exploração Animal
Na animação clássica “101 Dálmatas”, a vilã Cruella De Vil personifica a ganância e a crueldade ao sequestrar filhotes para transformá-los em um casaco de pele. Embora seja uma obra de ficção infantil, o filme serve como uma poderosa metáfora para a exploração animal motivada pela vaidade e pelo lucro, uma realidade que persiste em diversas indústrias e práticas, como o tráfico de animais silvestres, a caça ilegal e a produção de peles. O desejo de Cruella por um casaco de dálmatas reflete a objetificação dos animais, transformando-os de seres vivos em meros produtos ou símbolos de status.
Dica para a redação: Você pode usar “101 Dálmatas” na introdução para contextualizar a persistência da exploração animal ao longo da história, mesmo que de forma simbólica. Ou, na argumentação, para criticar a mercantilização da vida animal e a busca desenfreada por bens de consumo que desconsideram o bem-estar dos seres vivos.
Exemplo de parágrafo de introdução:
Desde a infância, somos confrontados com a crueldade ficcional de personagens como Cruella De Vil, que, em “101 Dálmatas”, personifica a ganância ao buscar transformar filhotes em um casaco de pele. Contudo, a realidade dos maus-tratos em animais no Brasil transcende a fantasia, revelando uma problemática complexa e multifacetada. Nesse contexto, é fundamental analisar as perspectivas que envolvem essa questão, desde a lacuna na legislação até a insuficiência na fiscalização, a fim de propor soluções efetivas para a proteção animal no país.
2. Lei Sansão (Lei nº 14.064/2020): Avanço Legal e Desafios Reais
A Lei nº 14.064/2020, conhecida como Lei Sansão, representa um marco importante na legislação brasileira ao alterar a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98). Ela aumentou significativamente a pena de reclusão para quem praticar atos de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar cães e gatos, estabelecendo de dois a cinco anos de prisão, além de multa e proibição da guarda. Essa lei reflete uma crescente conscientização social sobre a necessidade de proteger animais domésticos, mas também expõe o paradoxo entre o avanço legislativo e a persistência da impunidade.
Dica para a redação: Utilize a Lei Sansão para argumentar sobre a evolução da proteção animal no Brasil e a resposta do Estado à demanda social. No entanto, explore também as lacunas: a lei, por si só, não garante a erradicação do problema se não houver fiscalização efetiva, denúncias ativas e uma mudança cultural profunda na sociedade. Pode ser um bom contraponto para discutir a ineficácia da lei em face de uma realidade complexa.
Exemplo de parágrafo de argumentação:
Em que pese o avanço legislativo materializado na Lei Sansão (Lei nº 14.064/2020), que endureceu as penas para maus-tratos contra cães e gatos, a prática criminosa persiste em níveis alarmantes no Brasil. Tal paradoxo evidencia que a mera existência de uma norma jurídica não é suficiente para erradicar um problema enraizado na cultura e na omissão estatal. A fragilidade da fiscalização, a lentidão dos processos judiciais e a falta de investimentos em educação para a guarda responsável contribuem para um cenário de impunidade, onde agressores raramente são punidos de forma exemplar, desestimulando a denúncia e perpetuando o ciclo de violência contra os animais.
3. Citação de Mahatma Gandhi: O Reflexo Moral de uma Nação
O líder pacifista indiano Mahatma Gandhi nos legou a célebre frase: “a grandeza de uma nação e seu progresso moral podem ser julgados pela forma como seus animais são tratados”. Essa afirmação transcende a mera proteção animal, posicionando o respeito aos seres sencientes como um termômetro do desenvolvimento ético e civilizatório de uma sociedade. Para Gandhi, a compaixão e a justiça não deveriam se restringir aos humanos, mas se estender a todas as formas de vida.
Dica para a redação: Perfeita para introduções e conclusões, a citação de Gandhi pode ser usada para contextualizar a discussão sobre maus-tratos como um indicador da maturidade moral do Brasil. Na argumentação, pode reforçar a tese de que a falta de proteção animal revela falhas estruturais e éticas mais amplas na sociedade, ou para criticar a hipocrisia de um país que almeja o progresso sem antes garantir direitos básicos a todos os seres vivos.
4. Filme “Okja” (2017): A Crítica à Indústria Alimentícia
Dirigido pelo aclamado Bong Joon-ho, “Okja” narra a tocante história de uma garota sul-coreana que luta para salvar sua porca geneticamente modificada de uma corporação multinacional que a criou para a produção de carne em larga escala. O filme é uma poderosa alegoria sobre a exploração animal em um contexto industrializado, questionando os limites éticos da produção de alimentos, a mercantilização da vida e a desumanização dos animais em nome do lucro. Aborda também o ativismo e a importância da conscientização em face da crueldade sistêmica.
Dica para a redação: “Okja” é um excelente repertório para abordar a exploração animal em fazendas industriais, a ética do consumo de carne, e a responsabilidade das grandes corporações. Você pode utilizá-lo para argumentar sobre a necessidade de debater o consumo consciente, a busca por alternativas sustentáveis e o papel do consumidor na demanda por práticas mais éticas no tratamento animal.
5. Livro “Libertação Animal” (Peter Singer, 1975): A Filosofia Contra o Especismo
Considerada uma obra seminal para o movimento de direitos dos animais, “Libertação Animal”, do filósofo australiano Peter Singer, introduz e critica veementemente o conceito de especismo – a discriminação baseada na espécie, análoga ao racismo ou sexismo. Singer defende que a capacidade de sentir dor e prazer (senciência) deve ser o critério primordial para a consideração moral, e não a inteligência ou a racionalidade. Ele argumenta que ignorar o sofrimento animal por eles não pertencerem à espécie humana é uma forma de preconceito.
Dica para a redação: Use Singer para fundamentar uma argumentação ética e filosófica contra os maus-tratos. Você pode introduzir o conceito de especismo para desafiar a visão antropocêntrica que historicamente justificou a exploração e o sofrimento animal, defendendo que a senciência exige respeito e proteção, independentemente da espécie.
6. Dados de Denúncias de Maus-tratos (ONGs): A Realidade em Números
Organizações como o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal e a World Animal Protection frequentemente divulgam dados alarmantes sobre o crescente número de denúncias de maus-tratos a animais no Brasil. Esses números, que incluem abandono, agressões físicas, privação de alimento e abrigo, e exploração, revelam a dimensão e a gravidade do problema. A alta taxa de denúncias, muitas vezes subnotificadas, aponta para uma falha sistêmica na proteção e fiscalização.
Dica para a redação: Utilize esses dados para ilustrar a magnitude do problema no país, reforçando a urgência de políticas públicas mais eficazes, programas de educação ambiental e o engajamento social. Você pode argumentar que, apesar da conscientização, os números mostram que a sociedade ainda falha em proteger seus animais, exigindo ações mais concretas do poder público e da comunidade.
7. Conceito de Senciência Animal: A Base Científica do Respeito
A senciência animal, um conceito amplamente reconhecido pela neurociência e pela etologia, refere-se à capacidade de um ser vivo experimentar sensações e emoções, como dor, prazer, medo, alegria e estresse. Ao contrário da antiga visão cartesiana que via animais como autômatos, a ciência moderna comprova que eles são seres conscientes e capazes de sofrer. Esse reconhecimento é fundamental para a defesa dos direitos animais, pois derruba a ideia de que são meros objetos sem capacidade de sentir.
Dica para a redação: O conceito de senciência é uma ferramenta poderosa para fortalecer argumentos sobre a necessidade de respeito e proteção. Você pode utilizá-lo para desconstruir justificativas para práticas que causam sofrimento e maus-tratos, apelando para a empatia e a responsabilidade humana, e fundamentando a urgência de leis e políticas que reconheçam os animais como indivíduos com direito à vida e ao bem-estar.
8. Caso do Carrefour (2018): Um Marco de Indignação e Mobilização
Em 2018, o brutal assassinato da cadela Manchinha por um segurança em uma unidade do Carrefour em Osasco (SP) gerou uma onda de comoção e indignação nacional e internacional sem precedentes. O caso, amplamente divulgado, expôs não apenas a crueldade dos maus-tratos, mas também a fragilidade da proteção animal e a lentidão da justiça no Brasil. A mobilização social que se seguiu, com protestos e campanhas, demonstrou o crescente engajamento da população na defesa dos animais e a demanda por responsabilização.
Dica para a redação: Cite o Caso Carrefour para ilustrar a brutalidade dos maus-tratos e a importância da mobilização social na busca por justiça. Você pode utilizá-lo para argumentar sobre a necessidade de responsabilização efetiva dos agressores, a conscientização das empresas sobre sua responsabilidade social e a importância de políticas preventivas em espaços públicos e privados.
9. Correlação entre Maus-tratos Animais e Violência Interpessoal: Um Alerta Social
Diversos estudos nas áreas de psicologia, sociologia e criminologia demonstram uma forte e preocupante correlação entre a prática de maus-tratos a animais e a manifestação de violência contra seres humanos, seja no âmbito doméstico ou social. A crueldade animal é frequentemente identificada como um indicador precoce de transtornos de conduta, um “elo” na cadeia da violência e um sinal de alerta para abusos contra crianças, idosos e parceiros. Essa interconexão sugere que a violência é um fenômeno multifacetado, e que a agressão contra qualquer ser vivo pode ser um prenúncio de violências maiores.
Dica para a redação: Este repertório é excelente para argumentar que a proteção animal não é apenas uma questão de ética e compaixão, mas também de segurança pública e saúde social. Ao combater os maus-tratos a animais, a sociedade também pode prevenir outras formas de violência, ressaltando a urgência de uma abordagem integrada para o problema, que inclua educação, saúde mental e segurança.
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